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domingo, 22 de dezembro de 2013
Os Miseráveis (1998): a transmutação do fantástico para o realistico
A adaptação de Billie August para a obra de Victor Hugo, em termos de conceito, difere bastante do filme estrelado por Hugh Jackman, o filme de 1998 é mais realista e pé no chão e se concentra no aspecto mais cinematográfico do livro: o jogo de gato e rato entre Jean Valjean e Javert.
A adaptação de 98 se despe dos elementos fantástico da obra de Victor Hugo, por exemplo a força sobre-humana de Jean Valjean é visto como algo natural devido ao seu longo período nas galés. A insurreição de 1832 e os aspectos sociais da trama são bastante suprimidos mas o essencial, o elemento humano, permanece intacto.
Fora isso o roteiro tem umas sacadas bem interessantes por exemplo a afeição e o apego que Jean Valjean nutre por Cosette quando ela já é uma jovem poderia ser confundido com desejo ou paixão mas o roteiro inteligentemente mostra um Jean Valjean apaixonado por Fantine tornando mais convincente os sentimentos paternos que Jean tem por Cosette. Outro ponto a se destacar é a postura de Cosette (interpretada por Claire Danes, ótima) bem mais ativa do que na obra de Victor Hugo.
Se você assistiu ao filme com Hugh Jackman e o achou interessante mas um tanto longo demais dê uma chance a esse filme aqui. O filme de 98 não tenta ser fiel a todos os acontecimentos do livro mas é fiel ao espírito da obra original. Uma grande adaptação.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Um Estranho no Ninho - A Insanidade das pessoas normais
Um Estranho no Ninho pode ser considerado uma verdadeira aula de como fazer um bom filme, as regras de ouro estão lá: personagens marcantes, roteiro bem desenvolvido e direção segura.
O roteirista Syd Field disse que um bom filme precisa mostra a personalidade de seus personagens em poucas imagens. Um Estranho no Ninho segue a risca essa cartilha; logo nas primeiras cenas do filme somos apresentados a atividade rotineira da enfermeira Ratched e em seguida acompanhamos a chegada de Randle ao hospício e o seu riso debochado logo que as algemas são retiradas, na frente dos policiais.
Enxergamos o filme pelo ponto de vista de Randle e nos sentimos oprimidos pela manutenção rígida das regras impostas pelo hospital e que tem na enfermeira Ratched a porta-voz para as ideias enraizadas naquele local. Randle com seu jeito anárquico surge como o elemento de caos no ambiente controlado em que é posto. Com essa premissa Um Estranho no Ninho poderia se tornar um filme maniqueísta e melodramático se fosse escrito por mãos menos talentosas mas não é o que acontece: o roteiro se furta a tratar qualquer um dos personagens como vilão da história, isso fica evidente na cena em que Ratched demonstra sua vontade em ''ajudar'' Randle mesmo sabendo que sua influência nos demais pacientes pode ser prejudicial. Sendo assim não adianta procurar culpados pela tragédia que ocorre no final do filme.
Mais de 30 anos após sua produção o filme perdeu alguns pontos no quesito ousadia e originalidade que devem ter sido uma das suas características mais marcantes na época de sua estreia. Original ou não Um Estranho no Ninho é inegavelmente uma obra atemporal, todas as pessoas em qualquer época gostaria de ser amados como Randle e respeitados como Ratched e isso faz com que Um Estranho no Ninho seja sempre uma experiência impactante e poderosa.
Cabo do medo - A moral no banco dos réus
O Circulo do Medo de 1960 é um dos filmes símbolos da moral da década de 60, na trama um advogado (interpretado por Gregory Peck ) é um homem honrado determinado a proteger sua família da vingança do maniaco Max Cady, devido ao fato do advogado ter sido a testemunha-chave para a condenação de Max.
A refilmagem de Martin Scorsese segue um caminho completamente diferente. Na trama de Scorsese Max Cady (agora interpretado por Robert de Niro) tem motivos mais palpáveis para se vingar do seu advogado (Nick Nolte): ele era o seu defensor na acusação de ter violentado uma mulher mas omitiu o fato da mulher ser promíscua o que poderia ter reduzido sua pena pela metade, na época Max Cady era analfabeto mas na prisão ele não só aprendeu a ler como estudou a fundo as leis, percebendo assim o erro de conduta do seu advogado, por isso após Max Cady sair da prisão o advogado sabe que sua família está em perigo e procura dete-lô de várias maneiras mas Max Cady parece estar sempre um passo a frente do seu ex-advogado. A esposa do advogado (Jessica Lange) está determinada a proteger sua família mas as ações de Max a levam a se confrontar com o seu marido, relembrando erros que este cometeu no passado.
Juliette Lewis interpreta a filha do casal, uma tipica jovem problemática, insegura sexualmente e que diante das brigas dos pais refugia-se em seu quarto cercado de pôsteres de James Dean e The Cure, ao conhecer Max Cady ela se sente ao mesmo tempo amedrontada e fascinada por um homem que representa um ameaça a sua família mas que parece entender seus sentimentos melhor do que seus pais.
O filme expõe as virtudes e os desvios de caráter dos personagens de maneira convincente. A única crítica que faço ao filme é a de que Max Cady parece ter um dom quase sobrenatural de prever as atitudes e os pensamento de todos os outros personagem mas em seu longo período na prisão ele deve ter lido o mais famoso livro de estratégia da história: A Arte da ;Guerra, cujo passagem mais conhecida é a seguinte: ''Conhece-te a ti e aos teus inimigos e, em cem batalhas que sejam, nunca correrás perigo'' Os estudiosos e cientistas sempre afirmaram que conhecimento é poder mas o que acontece quando tal poder é adquirido por uma pessoa violenta e vingativa? Cabo do Medo nos dá a resposta.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Analise de Breaking Bad - Quarta temporada
P.S: Se você ainda não assistiu as 3 primeiras temporadas de Breaking Bad
Devido aos acontecimentos da terceira temporada Walter e Jesse já começam essa temporada se sentindo sob a mira de um revólver. Logo no primeiro episódio Gus deixa bem claro que Walter se tornou um problema que ele não sabe como solucionar, a estratégia de Gus para se livrar do ''problema Walter'' e quanto tempo este tem de vida tendo como adversário alguém tão frio e pragmático são os temas centrais dessa temporada.
Walter passa a andar armado mas (pra variar) ele oculta o quanto pode sua atual situação para Skyler que entra de vez nos negócios ilícitos do maridão, planejando comprar o estabelecimento mais apropriado pra ele lavar o dinheiro que recebe pela fabricação de metanfentaminas.
Por outro lado Jesse se mostra incapaz de encarar o fato de que tirou a vida de alguém e pra tentar esquecer isso transforma sua casa num verdadeiro abrigo pra viciados e mendigos com muita música e drogas 24 horas por dia. Ao saber disso Gus cria uma elaborada estratégia e a serie toma um rumo insuspeito Jesse se torna cada vez mais valioso e Walter mais descartável.
Gustavo Fring
Desde a segunda temporada sabemos que Gustavo Fring é uma pessoa que gerencia seus negócios de maneira prudente mas é nessa temporada que temos uma dimensão mais precisa do quanto obstinado e manipulador ele é. Após os eventos da terceira temporada ele percebe que Jesse pode ser uma pessoa mais leal do que ele poderia supor e decide usar isso a seu favor, dando a Jesse algo que Walt nunca lhe deu: incentivo. Admiramos sua inteligência e o odiamos pela mesma razão pois sabemos que as chances de Walt White passar a perna em um cara assim são mínimas.
Jesse
Se existe algum personagem realmente inocente nessa temporada esse personagem é Jesse. ele reage as situações emocionalmente enquanto Walter e Gus absorvem os acontecimentos de maneira mais racional. Ele é o personagem chave dessa temporada e nem sequer
A ''morte'' de Walter White
O Walter White que aprendermos a gostar morre nessa temporada. È esse recado que os produtores passam de maneira nada sutil no fim do episódio Crawl Space. Após esse episódio a tênue linha que o diferenciava de homens como Gus desaparece.
Um triunfo da TV moderna
Pra quem tinha alguma dúvida de que a qualidade e originalidade dos seriados americanos do inicio desse século se equivale a dos filmes americanos dos anos 70 a quarta temporada de Breaking Bad não deixa a menor dúvida sobre isso. Até o termo seriado pode ser questionado pois a quarta temporada de Breaking Bad mais parece um filme dividido em 13 partes do que a temporada de uma serie tamanha é a precisão e coerência dos roteiros e dos diálogos, nenhum segundo sequer é perdido. .No fim da quarta temporada percebemos que mesmo as cenas que pareciam mais desnecessárias são essenciais para a conclusão dessa temporada. O ideal seria que todos os 13 episódios fossem exibidos numa tela de cinema para o público os aplaudir de pé. Depois dessa temporada só me resta dizer a mesma coisa que os críticos e os fãs da serie dizem a 5 anos: Breaking Bad é brilhante.
Madame Bovary
Publicado em 1857 e escrito por Gustave Flaubert na época em que foi escrito Madame Bovary foi considerado escandaloso por suas inúmeras insinuações de sexo mas agora, 156 anos após sua publicação, é possível encontrar na obra certo conservadorismo. Madame Bovary com o passar do tempo passou a ser considerado um dos livros mais emblemáticos da história, nele estão presentes temas universais e atemporais como solidão, traição e oportunismo.
A protagonista, Ema Bovary é uma das personagens mais fascinantes da literatura, é uma sonhadora, vive em seu próprio mundo, a realidade não é o suficiente pra ela. Seu marido não é bom o suficiente seus amantes não a entendem... No decorrer do livro vemos Ema iludir-se a si mesmo continuamente; sobre o convento, sobre o casamento, sobre seus amantes e quando chega o momento em que ela sente que não pode fugir da realidade toma o caminho mais fácil.
Madame Bovary também deve ser analisado dentro do contexto histórico em que foi escrito e as trocas de farpas entre o farmacêutico Homais e o cura Bournisien acredito que nos dão uma descrição mais precisa do conflito entre religião e ciência no século XIX do que muitos livros de história.
Madame Bovary foi escrito numa época em que os autores procuravam escrever suas histórias da maneira mais realista possível daí o fato de Gustavo Flaubert escrever linhas e mais linhas sobre a decoração de uma casa, de um salão...coisas como essa podem aborrecer o leitor moderno e pessoalmente também me incomodaram, mesmo assim vale a pena ler Madame Bovary porque assim como Flaubert se detém várias vezes na descrição detalhada de objetos inanimados o mesmo ele faz com os seus personagens, todos eles dotados de uma riqueza psicológica impar
Nota: 8,0
Mas não se mata cavalos? - Um admirável estudo psicológico sobre exploração da miséria humana.
Mas não se mata cavalos? é um livro que foi publicado na década de 30, época em que os Estados Unidos viveram a pior crise econômica de sua história, seu autor Horace McCoy só teria seu talento reconhecido mais tarde e em sua escassa produção mas de impressionante vigor Mas não se mata cavalos? se tornou sua obra mais popular.
Logo no início da história percebemos que não se trata de um romance convencional, paralelo a narrativa tradicional acompanhamos o julgamento de Robert Syverten acusado de matar Glória Beatty uma mulher que ele havia conhecido há pouco tempo, a principio pode parecer um mistério revelado logo de início mas o autor não tem a intenção de criar uma historia de suspense, mas sim em desafiar o leitor a desvendar os motivos que levaram ao crime, analisando a personalidade e o relacionamento entre Robert e Glória e as circunstâncias em que o fato ocorreu.
Assim que Robert conhece Glória fica a par de sua personalidade mórbida e auto-destrutiva apesar de espantado a princípio procura compreenda-la e aceita-la do jeito que ela é.
''Uma coisa que me intriga é que todo mundo se preocupa tanto com viver e tão pouco com morrer. Por que é que todos esses cientistas bambas sempre andam por ai tentando prolongar a vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um mundão de gente neste mundo... gente que quer morrer mas que não tem coragem...''
Glória convida Robert a participar de uma maratona de dança em que não existe limite para o seu termino, os casais chegam a dançar por vários dias, o mais resistente leva o prêmio de mil dólares. Na maratona Robert e Glória fazem amizade com o casal James e Ruby, mas ao saber que Ruby está gravida Glória não hesita em lhe sugerir o aborto, ao ser informado disso Robert reclama com Glória que explica ''È uma lástima aquela pequena ter o filho. Que adianta ter filhos quando não se tem dinheiro suficiente para criá-lo?''
Conforme a maratona avança dias a fio o cansaço físico e psicológico começa a tomar conta dos participantes, alguns desistem outros como os protagonistas persistem. Ao longo da maratona inúmeros escândalos acontecem: mortes, prisões, brigas... e o organizador da maratona não tem escrúpulo em usar esses escândalos para aumentar a popularidade do evento, até que um grupo de mulheres pretende encerrar o evento alegando que ele atenta contra a dignidade humana e os princípios morais. E em todas essas ocasiões a figura mórbida de Glória se faz presente com comentários ácidos de uma sinceridade corrosiva.
Pode se dizer que a historia tem 3 protagonistas: Robert, Glória e o próprio salão de dança que ganha vida ao retratar até que ponto o ser humano pode chegar quando se trata de ganhar uns trocados a mais. Para aqueles que tem interesse em aprofundar seus conhecimentos, de uma maneira atrativa, acerca da tristeza e da exploração humana Mas não se mata cavalos? é uma obra essencial.
Persona - O som do silêncio
Se as imagens de Persona são inesquecíveis o roteiro é igualmente marcante: Elisabeth Vogler, uma atriz de teatro sofre uma crise emocional durante a encenação de uma peça, simplesmente emudece sem que ninguém saiba a real causa disso. Ao ser levada ao hospital uma enfermeira-chefe compreende seus sentimentos e a alerta para os perigos da sua postura ''você pode se isolar do mundo mas seu esconderijo não é a prova d'água a vida engana em todos os aspectos''. Em seguida é aconselhada a passar um período no campo ao lado de uma enfermeira gentil e compreensiva. A relação de convivência entre as duas em um ambiente que parece ser ao mesmo tempo livre de todas as obrigações do mundo exterior e abrigar todas as dúvidas e angústias existentes em seu corações é o grande trunfo do filme. A relação entre elas vai da cumplicidade ao ódio sem que jamais saibamos o que se passa na mente de Elisabeth Vogler, ela é a pura personificação do medo, da indiferença e da solidão.
Em Persona Bergman procura a resposta para um dos mais mistérios da humanidade: por que os seres humanos não conseguem compreender uns aos outros apesar de teoricamente sermos todos iguais? Como todos os gênios que vieram antes e depois dele Bergman não dá a resposta para essas questões ao invés disso cria mais perguntas.
Anotações sobre um escândalo - Uma obra-prima da literatura moderna
O livro tem duas protagonistas a primeira é a veterana professora Barbara Covett e a segunda a nova professora de cerâmica Sheba Hart, em pouco tempo as duas desenvolvem forte laços de amizade porém desde o início sabemos que essa relação de amabilidade entre ambas pode durar pouco devido ao temperamento amargo de Barbara - que alias é a narradora do livro - e o jeito doce de Sheba.
Desde o inicio sabemos que Barbara é daquelas professoras severas, intolerantes e que desprezam as demais pessoas que estão ao seu redor e sendo professora de uma escola pública não acredita no futuro de seus alunos
''A St. George é o cercadinho para as proles de Archway na puberdade - os filhos dos conjuntos habitacionais que têm de se atormentar e lutar aqui, por um mínimo de cinco anos, até que possam abraçar seus destinos como encanadores e vendedores de loja''
Sheba é uma mulher jovem, casada com um homem bem mais velho, mãe de dois filhos, uma filha problemática e um filho autista e que depois de anos sendo dono de casa agora se sente livre pra finalmente fazer algo que realmente gosta infelizmente os seus alunos não estão preocupados com isso e Sheba tem dificuldade em manter a disciplina na sala de aula mas surge uma exceção Connoly, ao contrário dos outros parece realmente querer aprender algo novo o que estimula Sheba mais aos poucos o aluno mostra desejo por sua professora, a principio Sheba resiste aos assédios mas aos poucos se entrega totalmente.
Barbara descobre e exige que Sheba interrompa essa relação imediatamente, nesse momento da história entendemos melhor a natureza de Sheba e Barbara, percebermos que Sheba é uma mulher frustrada com o rumo que sua vida tomou e Barbara, uma senhora extremamente solitária, possivelmente virgem que tem como única companhia sua gata. Barbara com toda sua amargura e solidão não parece um personagem mas sim uma pessoa real, de carne, sangue e coração a ponto de sentimos pena dela apesar do seu temperamento
''Pessoas como Sheba pensam que sabem como é estar sozinha mas sobre o gotejar da solidão a longo prazo, sem fim a vista, elas não tem nem idéia''.
''È um grande desafio para mim não dar uma ênfase excessiva a certas ocasiões. Qualquer mudança na minha rotina - qualquer pequena variação na sequência de trabalho e compras na mercearia e TV e assim por diante - costuma ganhar uma proporção desproporcional.
Sou como uma criança nesse aspecto: capaz de viver, psicologicamente, com uma migalha de antecipação por semanas, mas sempre correndo o risco de destruir o evento aguardado com o peso de minha perpesctiva excessiva''.
O livro foi baseado num caso real de uma professora que se envolveu com seu aluno e causou escândalo na sociedade e é partir desse ponto que a história começa, com Barbara escrevendo um livro para defender sua amiga Sheba da acusação de seduzir menores
''Não tenho a tola pretensão de considerar minha versão da história infalível. Mas acredito que minha narrativa seguirá um caminho bem fundamentado, podendo ajudar o público a entender quem Sheba Hart realmente é'',
O livro também não poupa críticas a educação ''moderna''nas palavras ácidas de Barbara
''Essas fantasias de fazer o bem são comuns nas escola públicas atualmente. Muito dos professores jovens nutrem esperanças secretas de ''fazer a diferença''. Quando eu estava estudando para me tornar professora, não havia nada disso. Nossas expectativas não iam além de conduzir os nossos futuros alunos pelos caminhos da Leitura, Escrita e Aritmética e fornecer a eles algumas orientações de higiene pessoal. Talvez nos faltasse idealismo. Mas, por outro lado, não me parece uma simples coincidência o fato de que, no mesmo período em que as ambições pedagógicas se tornaram tão inflamadas, os padrões de alfabetização e Aritmética básicas decaíram radicalmente''.
Barbara também critica as noções comuns de ''menor de idade''
''Não discuto a necessidade de existir uma lei que proíba que os professores façam o que Shebba fez. Mas certamente não concordo com ideia ingenua acerca da inocência de todo mundo abaixo da barreira arbitrariamente imposta de dezesseis anos. Eu não penso nem por um momento que ele sofreu um dano permanente por causa desta experiência com uma mulher mais velha. Pelo contrário, acredito que ele teve uma aventura bem excitante. Heresia, eu sei. Mas é isso que eu penso''.
Também a questionamentos sobre a diferença da opinião popular dos casos de homens mais velhos se envolverem com menores e mulheres fazendo a mesma coisa.
''Os cientistas não chegam até a sugerir que a atracão de homens mais velhos por mulheres mais jovens é um instinto evolutivo - um reflexo presente na biologia do macho? Uma mulher que molesta um menor não apresenta um sintoma de uma tendência inata. Ela é uma aberração''.
Enfim Anotações sobre um escândalo é uma obra complexa e poderosa, com analise magistral da personalidade dos seus personagens, uma obra de arte, e um dos livros que eu guardo com mais carinho na minha estante. Mas se você está acostumado a ler livros modernos, leves, de aventura prepare-se! Anotações sobre um escândalo é um livro a moda antiga que segue a tradição de Machado de Assis, Dostoievski, Charles Dickens e Jane Austen em que a intenção é tão importante quanto a ação. Se você sente fascínio por dramas psicológicos não perca tempo! Leia o livro e prepare-se para contemplar uma obra viciante e complexa.
Crepúsculo dos Deuses - Uma das maiores críticas feitas a Hollywood
O maior elogio que pode ser feito a Billy Wilder em Crepúsculo dos Deuses é que depois de ter exposto Norma Desmond a inúmeras desilusões ele se apiedou de sua protagonista e conferiu a ela o ''retorno'' com a qual ela tanto sonhara.
Um dos aspectos principais da história é a de que as promessas de Hollywood, de transformar atores, diretores e roteiristas em celebridade é capaz de, a longo prazo corromper inteiramente a alma dessas pessoas. A figura de Norma Desmond é onipresente na indústria do entretenimento sempre que pensamos em astros e estrelas decadentes, seja na música, no cinema e na TV a sua imagem logo nos vêem a mente. E assim continuará sendo, enquanto houver promessas de transformar pessoas normais em Deuses Norma Desmond surgirá como uma sombra inconveniente, uma lembrança perpétua dos efeitos danosos que esse tipo de procedimento pode causar no coração das pessoas.
Para compreendermos os tempos de glória de Norma Desmond não é necessário muita imaginação ou pesquisa; Hollywood era o paraíso na década de 20 e continua a se-lo nos dias de hoje. E em meio a vários astros e estrelas que mantém sua popularidade ao longo do tempo há aqueles que se destacam em um ou dois filmes e em seguida caem no esquecimento. Desse ponto de vista ela não passa de um efeito colateral inerente ao sistema ou seja em Crepúsculo dos Deuses temos uma belo exemplar da Seleção Natural aplicada aos seres humanos: Norma Desmond não foi capaz de se adaptar as mudanças do ambiente em que vivia por isso caiu no esquecimento agora é muito mais fácil culpar o sistema, o gosto do público ou qualquer outro fator externo do que tomar consciência das próprias limitações Mantem-se em sua torre de marfim onde pode continuar acreditando que é uma estrela, tem seu macaco de estimação, jogar cartas com seus velhos colegas (igualmente esquecidos), assiste a um filme em que contracenou uma vez por semana, tem um mordomo que satisfaz todas as suas vontades e acredita receber cartas de fãs ansiosos por seu retorno as telas. È uma grande injustiça da parte de Joe Gillis dizer que sua vida é vazia.
A situação de Norma Desmond parece ser uma exceção mas não será ela a regra? Será que não existem atualmente astros que vivem em torres de marfim e que, com a colaboração de agentes bajuladores, julgam ser mais do que são na realidade? Assim sendo Crepúsculo dos Deuses também apresenta contornos religiosos e morais pois mostram como a vaidade e a soberba, dois pecados capitais, podem contribuir para a ruína de um ser humano.
Joe Gillis, narrador do filme é outro exemplo tipico de um fracassado, mas pertence a uma outra casta: a dos pretensiosos, iludido pelas promessas de Hollywood abandona seu trabalho, seus amigos, sua vida normal apenas para, em um curto período de tempo na ''terra dos sonhos'', descobrir que não tem tanto talento quanto suponha ter. No encontro com Norma Desmond ele enxerga a oportunidade de entrar no jogo de Hollywood nem que seja pela porta dos fundos. Com o passar do tempo percebe que se tornou o pior tipo de aproveitador: aquele que mesmo envergonhado dos seus atos continua a pratica-los.
E como não nos enternecermos com a figura do descobridor de Norma, seu ex-marido e mordomo Max Von Mayerling? ;Que adora tanto sua senhora que não permite que ela enxergue a realidade. Como criticar severamente alguém que, para garantir a paz da pessoa que mais ama, omite dela certas verdades? Os resultados de sua atitude mostram-se desastrosos mas o que faríamos em seu lugar? A mim me parece que tanto a revelação da verdade quando sua ocultação podem ter resultados terríveis, ele escolheu o que lhe pareceu menos cruel.
Betty Schaefer, interesse amoroso de Joe mostra-se a única personagem bem resolvida na trama e capaz de superar os próprios complexos. Alguns consideram essa personagem de pouca importância na história mas é através dela que Billy Wilder cria uma oposição clara a personalidade perturbada de Norma Desmond. Com a presença de Betty Billy Wilder mostra que seu filme não é uma mera crítica a indústria Hollywoodiana mas principalmente uma crítica as nossas tendências narcisistas e escapistas que são a gênese dessa indústria.
Batman - O Cavleiro das Trevas - Uma analise sociológica e filosofíca da trama
Em Batman - O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan não fez apenas mais um filme de super-herói, mas um estudo sobre três tipos de heróis que aprendemos a admirar em nossa época.
Neste filme Batman mostra-se violento, confuso e contraditório. A semelhança com ''heróis'' comtemporâneos é mera coincidência? Sim e não. O personagem foi criado nos Estados Unidos na década de 30 época em que o país viveu a pior crise econômica e moral de sua história, empresários bem-sucedidos foram a falência a pressão de grupos religiosos e defesas da moral fez com que o governo criasse a Lei Seca, gerando lucros exorbitantes para a máfia, policiais e políticos corruptos.
No cinema, cria-se um novo tipo de gênero: o de gangster. Muitas desses filmes eram baseados em fatos que apareciam nos jornais da época. Por pressão de grupos conservadores que censuravam e fiscalizavam o conteúdo moral dos filmes os gangsteres dessas história morriam ou se arrependiam. Foi nesse período que Batman apareceu pela primeira vez nas páginas dos quadrinhos, não tinha a menor pena dos bandidos que enfrentava, matava-os!
Na década de 60 os Estados Unidos enfrentaram guerras civis e externas que levaram a população a desconfiar da intenção dos seus próprios governantes e a questionar os valores morais que regiam a nação. No cinema vemos esse conflitos em filmes como Easy Rider e Mash (este de 1970) porém a televisão americana parecia alheia a tudo isso, preocupada apenas em entreter o telespectador com séries de tv fantasiosas e/ou divertidas que o fizessem se esquecer dos problemas que atravessavam o país. Foi nesse período que o violento personagem criado por Bob Kane foi levado as telas da televisão de maneira irreverente e divertida, para desgosto de seu criador e dos fãs de histórias em quadrinhos.
Na década de 80 as HQS de Frank Miller e Allan Moore levaram o personagem de volta as suas origens sombrias. O Batman de Tim Burton é tão peculiar quanto os outros personagens da cinematografia do diretor mal ele podendo se comparar com outros heróis de ação da época.
Porque tantas diferenças na caracterização de um mesmo personagem de uma época para a outra? Batman Begins de 2005 nos deu a resposta: Bruce Wayne é um homem normal que teve que enfrentar seus medos para poder fazer o que julgava ser o certo. Ao contrário de Superman, que veio de outro planeta e simboliza o homem-ideal, Batman não possui um corpo indestrutível e nem está imune as contradições morais que qualquer pessoa pode ter.
Na década de 30 Batman era um justiceiro assassino, nos anos 60 divertido e ingênuo, nos anos 80 exagerado e sombrio ao mesmo tempo e o Batman de Nolan combate o crime muitas vezes agindo acima da lei que ele supostamente quer defender. Talvez a melhor definição do Batman seja dada por ele mesmo a certa altura do filme: ''Eu sou o que Gothan precisar que eu seja''.
Harvey Dent é o tipico herói norte-americano, diferente de Batman age de acordo com as leis, é firme em suas convicções e as vezes se mostra inseguro e romântico. Harvey Dent é o tipo de herói que Hollywood nos ensinou a amar.
O Coringa teoricamente é o vilão do filme mas poderia ser encarado como herói em outra época da história. Nos séculos 19 e 20 alguns revolucionários socialistas, anarquistas e de grupos de esquerda em geral não hesitavam em usar táticas pouco ortodoxas como a explosão de bombas, roubo e o assassinato de políticos como meios de fazer valer suas idéias (alguns posteriores vieram a receber o prêmio Nobel da Paz).
Depois da queda da União Soviética o mundo ocidental dito civilizado pode desfrutar de uma país que há muito tempo não tinha. As revoluções e táticas de guerrilha pareciam coisas do passado ou relegado a países miseráveis que eram teoricamente incapazes de incomodar as grandes potências ocidentais. Até quem em 2001 o maior país do mundo sofreu o mais trágico ataque terrorista da história. Uma nova onda de paranóia foi iniciado no mundo e o presidente dos Estados Unidos, George W.Bush se apresentou como o herói que eliminaria a ''ameaça terrorista'' para isso violou direitos civis enviando prisioneiros de guerra a Guantánamo onde supostos terroristas eram torturados sem terem direito a qualquer defesa.
O Coringa é o vilão dos nossos tempos pois usa o medo e táticas terrorista para atingir seus objetivos mas ao mesmo tempo nos identificamos com sua descrença e deboche em relação aos governos e a sociedade.
No século 19 o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu: ''Quase tudo que chamamos de 'cultura superior' se baseia na espiritualização e no aprofundamento da crueldade. Aquele 'animal selvagem' nem chegou a ser morto, vive, floresce, apenas foi divinizado.'' È nisto que o Coringa acredita e em nenhum momento se desvia do seu ideal. Não é assim que agem os heróis?
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